Apresentação

A autonomia está em voga no discurso pedagógico. Quase todos os projetos pedagógicos das escolas têm por objetivo formar uma pessoa autônoma, um sujeito crítico, um cidadão. Mas quando e como começa a experiência da autonomia? Ora, não há outra maneira de tornar-se autônomo que não pela experiência própria da democracia.

O estudante só pode alcançar a autonomia se pouco a pouco ele tem a oportunidade de tomar as decisões que o afetam. A autonomia dos estudantes só é possível se os educadores não apenas a tem por objetivo, como eles próprios a vivenciam na construção teórica e prática da sua concepção pedagógica e do trabalho coletivo.

Tendo a questão da democracia como centro, o curso de Formação da Politeia existe há 9 anos e busca compartilhar conhecimentos teóricos e práticas pedagógicas entre educadores, professores, pedagogos e pesquisadores da educação tendo como ponto de partida as experiências da educação democrática no Brasil e em outros países do mundo.

A educação democrática tem uma tradição centenária, embora só recentemente esteja se tornando conhecida. A primeira escola democrática surgiu em 1852, quando Tolstoi criou sua Iasnaia Poliana. Mas o movimento ganhou força a partir das décadas de 1960 e 1970, inspirado por dois importantes críticos da educação connvencional: Alexander Sutherland Neill (1888-1973) e Ivan Illich (1926-2002). São escolas formais e experiências de educação não-formal que buscam a construção de uma comunidade horizontal e solidária a partir da autogestão administrativa e pedagógica por educadores, estudantes e, em alguns casos, pais.

Desenvolvendo experiências muito diversas, o principal traço deste movimento pedagógico é a pluralidade. São escolas públicas, privadas ou comunitárias que se autodefinem democráticas, tendo práticas, referências teóricas e princípios afins.

Outra tradição pedagógica que contribui para as reflexões desenvolvidas pela Politeia é a da educação popular e comunitária, que tem Paulo Freire como principal referência. Segundo essa tradição, a educação é uma responsabilidade compartilhada entre pais, educadores, estudantes e a comunidade e não se reduz a uma tarefa de especialistas. O desenvolvimento humano integral é a principal preocupação da educação comunitária e a autonomia, portanto, é seu meio e fim. A experiência do sujeito é ponto de partida para a construção de conhecimento. Nessa perspectiva, os processos formativos extrapolam o contexto escolar e integram-se à cidade que oferece aos estudantes e educadores uma série de oportunidades educativas a serem exercitadas face as suas potencialidades, carências e problemas.

O projeto educacional da Politeia nasce no encontro das experiências da educação democrática e da educação popular e comunitária. Nesse projeto as separações que cindem o conhecimento entre dimensões acadêmica/popular, teórica/vivida, racional/afetiva, intelectual/corporal, individual/coletiva são superadas na construção de uma comunidade de aprendizagem. O currículo é um mapa que orienta as experiências singulares e lhes confere um sentido comum, projetos individuais e coletivos estruturam o desejo de aprender e de intervir na cidade. As relações temporais e espaciais são construídas pela participação de todos e os conflitos que delas advém são vistos de maneira positiva e geridos democraticamente.

Apresentando e problematizando essa concepção de educação, o curso também é um espaço para reflexão a respeito da realidade educacional brasileira e da escola pública no qual buscamos identificar os limites institucionais que se nos colocam e compreender as principais políticas públicas nacionais que sustentam uma prática democrática nas escolas.

O programa proposto centra-se em cinco grandes temas: história da educação democrática; currículo emergente ou de arquitetura aberta; gestão da convivência e práticas pedagógicas inclusivas; políticas públicas brasileiras.

A metodologia do curso adota as seguintes estratégias: seminários de texto; apresentação e debate de experiências escolares inovadoras históricas e atuais; reflexão sobre as experiências e expectativas dos participantes; vivências de aspectos da cultura democrática.